["Não é na hora
que estraga.
É depois.
Quando o som passa
e algo decide ficar.
A gente pensa
que acabou ali.
Mas não acaba.
Só muda de lugar.
O tempo não quebra de uma vez.
Ele desgasta.
Volta, insiste,
repete sem pressa
até o inteiro virar resto.
Tem palavra
que não vai embora.
Encosta
e fica.
Fica no ouvido
como um golpe que não faz barulho
- mas faz.
E não dói só quando dizem.
Dói quando volta.
Sozinha.
Sem voz.
Sem ninguém por perto.
Tem palavra
que não chega.
Ela entra.
E quando entra,
não sai inteira.
Se espalha por dentro
e aprende o caminho
de onde machucar.
E a gente tenta entender.
Tenta relevar.
Tenta seguir.
Mas algumas coisas
não pedem permissão
pra permanecer.
Já pensou
como seria
silenciar tudo?
Mas não é morte
que chama.
É pausa.
E às vezes
a gente confunde
alívio com fim.
A culpa pesa.
Mas ainda aponta caminho.
Ainda deixa voltar.
O que quebra a gente
nem sempre é o erro.
É o que continua depois dele.
A gente tapa o ouvido.
Mas já não adianta.
Porque tem coisa
que não vem mais de fora.
Vem de dentro
com a voz de alguém
que um dia esteve perto.
E a gente tenta.
Controla, organiza,
segura firme.
Mas quanto mais segura,
mais escapa.
Deus…
a gente sabe onde errou.
E quer voltar.
Mas como se volta
de um lugar
que ainda chama pelo nome da gente?
Talvez isso ainda seja escrita.
Ou talvez
seja só o que sobra
em quem ficou
depois que a palavra ficou também."]
(WSR)
Texto copiado, conforme autorização do autor junto ao site, com código de texto: T8594809
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