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domingo

MAIS UM DIA - W.S.R.

Quanto de vida cabe dentro de uma rotina de cada um? 

O mercado já está aberto antes de alguém chegar. Luz branca. Frio constante. Gente empurrando o dia junto com o carrinho. O caixa fala sem olhar muito. Quem responde também não insiste. O bip vai marcando as coisas num ritmo que ninguém acompanha, mas todo mundo obedece.

Um homem pára com dois produtos na mão. Olha um. Olha o outro. Demora mais do que devia. No fim, deixa um de volta. Não olha pra trás.

Atrás dele, ninguém estranha. Só esperam.

Tem uma criança pedindo alguma coisa mais à frente. A mãe não responde de primeira. Só aperta um pouco mais o carrinho. 

Tem coisa que não se fala, mas sustenta a casa.

O segurança encostado perto da porta observa sem pressa. Talvez nem saiba exatamente o quê.

Lá fora, uma moto passa cortando a rua. Rápida demais pra ser alguém. Só entrega.

O ônibus vem cheio. Cheio de verdade. Gente em pé, corpo encostado em corpo, equilibrando o cansaço como dá. Ninguém cai porque não tem espaço nem pra isso.

Mais adiante, um homem sobe numa parede que ele mesmo levantou. Ajusta um detalhe pequeno, alisa o reboco com cuidado. Ele faz bem feito. Uma casa que não é sua. Uma calçada que não sente. Quando termina, desce, limpa a mão na calça e vai embora. A casa fica.

Em outro lugar, alguém descobre uma forma de tratar o que antes matava. A notícia corre. Dá esperança. Mas não chega pra todo mundo.

E aqui dentro, nada muda.

A fila anda.

O bip continua.

As mãos continuam escolhendo o que cabe.

Uma sacola pesa mais de um lado. Quem segura troca de mão. Segue.

Quase tudo segue.

Tem gente que volta amanhã. Tem gente que não. E isso não passa pelo caixa.

Não é exatamente silêncio. Mas também não é conversa. É só… cada um tentando terminar o dia.

Quanto custa viver assim sem saber onde a vida começa ou onde ela ficou pra depois?


W.S.R.


(Este texto pode ser lido em seu original no site Recanto das Letras)


Tumblr


terça-feira

CORAÇÃO APAIXONADO - Milena Medeiros

Era tão tarde

E, mesmo assim,

Parecia que foi ontem. 

Um coração apaixonado,

Cheio de amores próprios

E impróprios. 

Cabiam nele

Desvelos e desejos 

Próprios da idade.

Frutos completos,

Amadurecidos 

no tempo certo. 

Amanhecia,

Anoitecia, 

Chuva e sol

E continuava

A esperar a colheita. 

Houveram tempos difíceis, 

Tempestades, até. 

Esse coração

Se mantinha coberto,

Frondoso e belo.

Não viu o tempo

Passar.

Dizem que continua 

Nos verdes campos,

Solitário em sua velhice. 

Cada marca reflete 

As podas que teve. 

Os nós da vida

Contam a sua história.


Milena Medeiros 

11/04/2026 

(online no site Recanto das Letras)


Destaco um comentário recebido via Recanto das Letras: 

WSR
["Milena… esse aqui me fez parar um pouco. Esse coração que você constrói… ele vai vivendo sem perceber, né? Vai esperando, atravessando tudo — sol, chuva, tempestade — como quem acredita que a colheita vem em algum momento… e isso dá uma certa beleza, mas também um silêncio ali no fundo. Gostei muito dessa ideia dele não ver o tempo passar. Parece alguém que se entregou tanto ao que sentia que esqueceu de si… e quando percebe, já virou outra fase. E essas “podas”… isso aqui é muito real. Porque não são só marcas — são coisas que moldaram mesmo. Tiraram, ajustaram, ensinaram… às vezes na marra. Agora, confesso que esse final mexe um pouco. Esse coração ali, ainda firme, mas ainda sozinho… não parece abandono, parece mais consequência de quem viveu tudo até o limite. Fica uma sensação meio difícil de explicar… como se fosse bonito, mas com um peso quieto junto. — W. S. R."]
Imagem via Tumblr 


quinta-feira

AMAR VOCÊ ME DÓI TODO DIA - WSR

["Dedicatória: Nem todo amor se constrói. Alguns… apenas consomem. A estes, este poema.


Te amar me dói todo dia,

É viver à beira da esperança,

Quando o amor já não guia,

Só resta a dor da lembrança.

Preso a nós desatados,

Entre continuar, ou fugir,

Será que ambos estão cansados,

Do ciclo que insiste em iludir?

Meu peito jaz como a vela,

Que apagou, só cera fria,

Que outrora iluminava a treva,

E agora se derrete em agonia.

Te amar virou meu castigo

Um hábito que me consome.

Como o vício em um veneno,

Que afaga e ao mesmo tempo some.

Quero me livrar das lágrimas,

Como alguém que vence o vício,

Você não sentirá a ausência,

Julgue-me — sempre foi fácil.

De mala pronta, como quem partia,

E descubro, no meu silêncio:

Não era eu quem você queria,

Mas é você quem eu quero.

Me indago com grande angústia:

“Sou só desejo… e nada mais?”

Por ti, mudei minha química,

Com o peito entregue à dor que traz.

Eu te contei cada injúria,

Seguida de uma lágrima importuna.

Mas quando encaro teu pranto,

Fraquejo, e de novo te aceito.

Rogo à minha mente que te mate,

Para que eu encontre paz, enfim.

Existe cura para tal desgaste?

Para as feridas dentro de mim?

Tua mente imatura se conforma,

Com tão pouco, já se acomoda.

Às vezes, até me dizes que me ama,

Mas isso não me faz sentir amado.

Já não sou mais quem te esperou,

Nem o que um dia sonhou.

Sou só os cacos de um homem,

Que teu silêncio moldou.

Te amar me dói todo dia…

Ferida em minha alma que esvazia

Toda esperança que lá havia,

Tornando impuro o sabor da vida.

Me abrasam cada vez mais

Cada faísca que você me traz,

Incendiando, com gesto mordaz,

A flora que em meu peito habita.

Hoje, do que fui, só cacos.

Do que sonhei, só cinzas.

Te amar me dói todo dia...

E amanhã, só restarão feridas."]


(WSR)



Texto copiado do site, conforme autorização do autor, sob código de texto: T8383886 - Licença Creative Commons


Sobre o Autor:

WSR tem 19 anos (2026).

É graduado em Psicologia. 

Com 28 textos já publicados no site Recanto das Letras, de onde eu escolhi esse poema acima para apresentar neste blog.

Link para o texto no site Recanto das Letras/poesia de wrs



DEPOIS QUE A PALAVRA FICA - WSR

["Não é na hora

que estraga.

É depois.

Quando o som passa

e algo decide ficar.


A gente pensa

que acabou ali.

Mas não acaba.

Só muda de lugar.


O tempo não quebra de uma vez.

Ele desgasta.

Volta, insiste,

repete sem pressa

até o inteiro virar resto.


Tem palavra

que não vai embora.

Encosta

e fica.

Fica no ouvido

como um golpe que não faz barulho

- mas faz.


E não dói só quando dizem.

Dói quando volta.

Sozinha.

Sem voz.

Sem ninguém por perto.


Tem palavra

que não chega.

Ela entra.

E quando entra,

não sai inteira.

Se espalha por dentro

e aprende o caminho

de onde machucar.


E a gente tenta entender.

Tenta relevar.

Tenta seguir.

Mas algumas coisas

não pedem permissão

pra permanecer.


Já pensou

como seria

silenciar tudo?

Mas não é morte

que chama.

É pausa.

E às vezes

a gente confunde

alívio com fim.


A culpa pesa.

Mas ainda aponta caminho.

Ainda deixa voltar.

O que quebra a gente

nem sempre é o erro.

É o que continua depois dele.


A gente tapa o ouvido.

Mas já não adianta.

Porque tem coisa

que não vem mais de fora.


Vem de dentro

com a voz de alguém

que um dia esteve perto.


E a gente tenta.

Controla, organiza,

segura firme.

Mas quanto mais segura,

mais escapa.


Deus…

a gente sabe onde errou.

E quer voltar.

Mas como se volta

de um lugar

que ainda chama pelo nome da gente?


Talvez isso ainda seja escrita.

Ou talvez

seja só o que sobra

em quem ficou

depois que a palavra ficou também."]


(WSR)


Texto copiado, conforme autorização do autor junto ao site, com código de texto: T8594809

Links para o perfil:

Recanto das Letras -WSR

domingo

O MENINO E A BOLA - Milena Medeiros

Miudinho menino,
Que tem a bola
Sua verdadeira amizade,
Quando só,
Espera o amiguinho
Pra brincar.

Paciente menininho,
Que vem da escola 
e logo busca
Um parceiro
Pra jogar.

Não perde o foco,
chama e chama
o vizinho.
Pergunta várias vezes
Se vem logo.

Não se apressa,
A pressa só 
Tem hora de chegar. 

Sentado, 
Enquanto não tem ninguém, 
Parece uma estátua.
Tão bela, ao sol. 
Um anjo aloirado!

Olhar atento 
a visualizar 
Se o amiguinho
Vem jogar. 

Esse miudinho
Me traz uma coisa boa:
De não desistir de nada!
Ser inocente,
Enquanto o sonho 
Não vem. 

A realidade dele
é pequena pra mim, 
Que da janela o observo 
Nesse seu vai e vem.

Quer saber, de tempo em tempo,
Se o vizinho irá descer.
Mesmo que essa pergunta 
Já tenha sido
Respondida outras vezes. 

Não se detém...
Parece um brinquedo
Que sempre faz
O mesmo som:
-  Oh Ney!!! Você vai descer?

Milena Medeiros
13/abril/2026
20:20h

(Para você, miudinho vizinho da foto)

Leia esse texto no site Recanto das Letras

(Imagem criada por AI Nano Banana derivada da foto por AMD)

Exponho um comentário que foi publicado para o texto, no site Recanto das Letras, por WSR, que provoca reflexões.
Este é o comentário: 

["WSR

Milena… esse poema tem uma delicadeza que vai chegando quietinha. A cena é simples, mas você olha com um cuidado que transforma tudo. Esse menino esperando… chamando de novo, mesmo já tendo ouvido a resposta… isso toca. Porque ali não tem orgulho, não tem cálculo — tem só vontade. E esse detalhe da repetição… “Oh Ney!!! Você vai descer?” — isso é muito real. Dá até pra ouvir a voz dele, meio insistente, meio esperançosa. Gostei muito de quando você entra na cena, observando da janela. Não fica distante, você se envolve… e o menino deixa de ser só ele, vira quase um lembrete pra quem tá olhando. Essa parte da inocência que insiste enquanto o sonho não vem… ficou bonita. Porque não romantiza demais, apenas expõe. No fim, fica uma sensação meio doce… e um pouquinho de saudade também. Como se a gente tivesse perdido um pouco dessa simplicidade no caminho."]

Maio/2026