Quanto de vida cabe dentro de uma rotina de cada um?
O mercado já está aberto antes de alguém chegar. Luz branca. Frio constante. Gente empurrando o dia junto com o carrinho. O caixa fala sem olhar muito. Quem responde também não insiste. O bip vai marcando as coisas num ritmo que ninguém acompanha, mas todo mundo obedece.
Um homem pára com dois produtos na mão. Olha um. Olha o outro. Demora mais do que devia. No fim, deixa um de volta. Não olha pra trás.
Atrás dele, ninguém estranha. Só esperam.
Tem uma criança pedindo alguma coisa mais à frente. A mãe não responde de primeira. Só aperta um pouco mais o carrinho.
Tem coisa que não se fala, mas sustenta a casa.
O segurança encostado perto da porta observa sem pressa. Talvez nem saiba exatamente o quê.
Lá fora, uma moto passa cortando a rua. Rápida demais pra ser alguém. Só entrega.
O ônibus vem cheio. Cheio de verdade. Gente em pé, corpo encostado em corpo, equilibrando o cansaço como dá. Ninguém cai porque não tem espaço nem pra isso.
Mais adiante, um homem sobe numa parede que ele mesmo levantou. Ajusta um detalhe pequeno, alisa o reboco com cuidado. Ele faz bem feito. Uma casa que não é sua. Uma calçada que não sente. Quando termina, desce, limpa a mão na calça e vai embora. A casa fica.
Em outro lugar, alguém descobre uma forma de tratar o que antes matava. A notícia corre. Dá esperança. Mas não chega pra todo mundo.
A fila anda.
O bip continua.
As mãos continuam escolhendo o que cabe.
Uma sacola pesa mais de um lado. Quem segura troca de mão. Segue.
Quase tudo segue.
Tem gente que volta amanhã. Tem gente que não. E isso não passa pelo caixa.
Não é exatamente silêncio. Mas também não é conversa. É só… cada um tentando terminar o dia.
Quanto custa viver assim sem saber onde a vida começa ou onde ela ficou pra depois?
W.S.R.
(Este texto pode ser lido em seu original no site Recanto das Letras)
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